よし, duas novas séries de post em No~Reason: Haikai e Lendas do Japão.

Bem, eu não preciso explicar o que são lendas. O haikai (também conhecido como haiku ou haicai no Brasil) é um poema curto de 3 versos; o primeiro e último versos devem ter 5 sílabas e o segundo verso deve ter 7. O haikai busca descrever um momento em poucas palavras, procurando contemplar esse momento. O principal escritor de haikai foi Matsuo Basho (1644 - 1694), que via o haikai como uma prática espiritual.

outro outono
no chão entre as folhas
sonhos de verão

(Ricardo Silvestrin)


Dia de Finados
Formigas carregam
Pétalas que caem.

(Jorge Lescano)


haru ya koshi
toshi ya kukiken
kotsugomori

Tradução:

Chega a primavera
Ainda que do ano seja
O penúltimo dia.

(Matsuo Basho)


Ikiryou, o fantasma dos vivos

Há muitos anos, um homem deixou a hospedaria no meio da noite para seguir viagem a Nagoya. Quando ainda estava nos subúrbios de Kyoto, numa encruzilhada, viu uma mulher sozinha, bonita e muito bem vestida. Era hora do boi, muito tarde para uma mulher sair para a rua sozinha. O homem pensou que provavelmente tivesse acontecido alguma coisa e ela precisasse de ajuda. Porém, continuou andando sem interromper sua viagem. Mas a mulher, dirigindo-se a ele, perguntou:

– Para onde o senhor vai?
– Vou a Nagoya – respondeu.
– O senhor deve estar com pressa, com traje de viagem tão tarde da noite. Mas, por favor, poderia parar um pouco, pois tenho de fazer uma pergunta que é muito importante para mim.
– Tudo bem, em que posso servi-la? – perguntou.
– Sabe onde fica a casa de Minbu no Taifu? Quero fazer-lhe uma visita, mas estou completamente perdida.
– A casa dele fica para aquele lado – disse, apontando para a direção – Gostaria de lhe ajudar, mas estou com muita pressa e não posso acompanhá-la.
– É muito importante para mim, por favor, leve-me até lá.

Constrangido, o homem saiu de seu roteiro e acompanhou a mulher. Ao mesmo tempo, sentiu certa satisfação por ajudá-la. Ela o seguiu silenciosamente até a porta de uma casa depois de caminhar cerca de uma hora.

– Aqui é a casa de Minbu no Taifu.
Ela agradeceu, disse que morava em Shiga com a filha e deu seu endereço.

– Quando o senhor passar em Shiga, por favor, faço questão que nos visite. Assim, terei a oportunidade de lhe oferecer um chá como agradecimento.

O homem abaixou a cabeça como cumprimento de despedida e saiu andando, porém, ao voltar a cabeça, a mulher havia desaparecido. Achou estranho, pois não a viu bater à porta, nem ninguém a abrindo. Então, voltou uns passos, examinou a porta e viu que ela estava fechada como antes. Olhou ao lado da casa, mas não havia ninguém. Ficou intrigado e pensou em bater à porta da casa, porém não queria incomodar ninguém àquela hora da noite. De repente, ouviu um grito horripilante no interior da casa. Chegou a ter impressão que alguém havia morrido de susto lá dentro. Porém, achou por bem esperar um pouco. Não seria prudente de sua parte entrar e se intrometer em questões alheias. Esperou ansiosamente que alguém abrisse a porta. Enquanto isso, começou a amanhecer.

Quando um criado abriu a porta, o homem perguntou o que aconteceu lá dentro na madrugada.

– Meu mestre tinha uma esposa em Shiga, mas a abandonou porque se juntou com outra mulher e mudou-se para cá – contou o criado. O ikiryou (espírito) da mulher anterior veio atrás do meu patrão, e a nova esposa dele ficou seriamente doente.

Nesta madrugada, a nova esposa deu um grito horrível, tentou correr e caiu morta no fundo da casa. Fico pensando, um ikiryou (espírito ou fantasma de uma pessoa viva) pode matar uma pessoa desse jeito?

Então, o viajante compreendeu. Depois que Minbu no Taifu abandonou a esposa, ela deixava seu corpo enquanto dormia para caçar a mulher que havia roubado seu marido. Ao se apresentar diante da mulher, em seu corpo espiritual, teria causado um susto capaz de lhe tirar a vida.

O viajante ficou atemorizado e arrependido de ter ajudado aquele fantasma, mas o que havia acontecido não havia como desfazer. Deu meia volta e seguiu sua viagem para fora de Kyoto.

Alguns dias depois, recuperado do susto e descansado da viagem de volta, o assunto voltou à sua cabeça. Então, para satisfazer sua curiosidade, resolveu ir até Shiga e buscou pelo endereço fornecido pela “mulher fantasma”. Quando achou a casa, ele entrou e conversou com ela. A mulher novamente agradeceu a ajuda e disse:

– Jamais esquecerei da sua ajuda, aquela noite me deu uma grande alegria.
Lembrarei disso até a próxima encarnação.

Ato seguinte, a mulher deu ao homem doces finos e ricas peças de seda. O presente era valioso demais para se recusar, e o homem aceitou tudo de bom grado – assim conta o livro Konjaku Monogatari, compilado em 1120 no Japão.

Adaptado do site Nippo Brasil.

またね!