Texto postado em Imbecil e Inexperiente no dia 9 de outubro de 2011.

Nunca fui um capeta em forma de guria. Mal aprontei na minha infância, que pelo jeito ainda não terminou. Entretanto, sempre questionei: por que posso fazer isso mas não posso fazer aquilo?

A graça não está na desobediência, mas sim em perguntar: por que não?

Nunca disse palavrões durante a infância. Quer dizer... só algumas vezes. É que quando você tem uma vagina no meio das pernas, você meio que é proibido de exprimir palavras de baixo calão.

A primeira vez em que disse um palavrão foi clássica. Eu estava na sala jogando Mario World aos 6 anos. Minha mãe estava lá fazendo a unha dos pés, enquanto sua pequena filha aspirante a nerd não conseguia passar daquela fase depois daquela da peninha -- a segunda da Donut Plains, para os entendidos.

Após ver aquela maldita (porém saudosa!) tela preta anunciando o game over, a ira da pequena Ana foi liberta. E assim emiti um sonoro desabafo:

- BOSSSSS...

Minha mãe me interrompeu. Eu era nova e bonitinha demais pra falar palavrões.

- Não fala isso!

Inocentemente, sem intenção alguma de sacanagem, respondi:

- Tá.

Sim. Comecei a falar palavrões trollando sem querer. Mas tudo fica melhor na segunda vez...

Ainda com 6 anos fui a um passeio, desses de escola, em que os pirralhos vão amontoados dentro de um ônibus podre de vereador. Vários bancos estavam pichados. Eu e a Amanda estávamos sentadas atrás de um banco cujos dizeres eram majestosamente lindos:

"BUSSETA FIDIDA" (escrito exatamente assim, com canetão vermelho.)

Não sei quanto à Amanda, mas eu não sabia o que "buceta" significava. Para mim, era apenas um xingamento, tipo uma outra maneira de dizer "vadia", ou qualquer coisa escrota aí. Mas nunca imaginei que se referia ao órgão genital feminino -- que você pode chamar de perereca, pimpinha, precheca, xoxota, capô de fusca, ou qualquer nome furreco à sua escolha.

Cheguei em casa, tomei meu toddy, assisti ao Mundo de Beakman (R.I.P. Lester!). Desci, fui pra sala da minha avó. Minha avó, minha tia e minha mãe estavam reunidas na sala assistindo a novela das seis. Mais uma vez, totalmente inocente, perguntei:

- Mãe, o que é buceta?

Pense na cara de espanto das mulheres ao olhar a pequena, doce e meiga Ana de maria-chiquinhas dizendo a maravilhosa palavra "buceta".

Sim, essa aí um dia fui eu!

- É uma coisa muito feia, Carol! (ah, meu nome é Ana Caroline e ninguém aqui em casa me chama de Ana)
- Mas o que é?
- É a pimpinha da mulher...
- Mãe. Você tem pimpinha?
- Tenho.
- Eu tenho uma também, né?
- Tem sim, filha.
- Então por que é feio?
- Porque é. Agora deixa a gente ver a novela, filha.

E não podia faltar a vez em que xinguei meu pai na apresentação de dia dos pais da escola.

Meus pais são, graças a Deus, separados. Nunca me dei bem com meu pai. Só via ele aos domingos por obrigação. E ele, idem. Hoje o cara nem sabe a que passos anda minha vida.

Todo ano tinha a apresentação de dia dos pais na escola. E todo ano dedicava a homenagem à minha mãe e ao meu avô. Na apresentação da segunda série, todos os pais estavam ali para ver seus pirralhos chatos cantando "Pai" do Fábio Jr., menos o meu -- como de costume. Cinco minutos antes da apresentação, um piá (cujo nome não me lembro, mas acho que era algo tipo Kevin, Kelvin, whatever) me perguntou, sem intenção de me sacanear:

- Ana, cadê seu pai?
- Não veio.
- Por que?
- Ah, ele é um cuzão.

Aí vem o leitor e diz: "Mas credo Ana, tua mãe não te deu educação?"

Deu sim. Não é porque falo palavrões que necessariamente tenho de dizê-los espontaneamente. Não saio por aí mandando todo mundo tomar no cu, a não ser que seja necessário.

Como disse lááá em cima: se você tem uma vagina no meio das pernas, você tem que moderar um pouco nos palavrões. Sabe por que? Também não sei. O dia em que eu souber a resposta, escreverei aqui assim que puder.

Mas para finalizar, gostaria que você refletisse nisto:

Imagine uma mulher doce, meiga e delicada acordando numa linda manhã ensolarada, ao som dos passarinhos. Ela vai se levantar da cama de lençóis floridos e verá uma nada discreta mancha vermelha neles. Ela está menstruada. Qual será a reação desta mulher?

  • a. Poxa, que coisa inconveniente...
  • b. Porra, queria ter um pinto.

Algodão doce pra vocês.